Todos os dias tu perdes e ganhas. Todos os dias tu vives e morres. Pelo menos um pouco de ti ganha, ou um pouco de ti perde, ou um pouco de ti vive ou até morre. Todos os dias tu és confrontado com estas ideias. E todos os dias tu segue-as sem consciência delas.
Às vezes precisamos de derrotas na vida para perceber a importância das vitórias, para saber saborear tudo o que se passa à nossa volta. Pois, eu hoje perdi.
Perdi porque tudo o que eu achava que conseguia superar hoje, não superei e vou procurar outra vez maneira de fazer isso acontecer, maneira de ser feliz. Perdi porque não me acho suficiente bom para as minhas expectativas, não me acho suficientemente bom quando olho para aquela pessoa, ou quando penso que devia ter feito de determinada maneira, onde os melhores atingem o topo. Eu passo a vida no quase.
Não sou suficientemente bom para aquilo que traço. Ou se sou, não estou contente e podia ter sido mais. Eu queria ser melhor! E não sou.
E as razões podem ser várias: falta de capacidade interior, de aplicação, de honestidade comigo mesmo. Talvez eu devesse pensar melhor naquilo que quero, com quem quero, como quero. Porque vivo eternamente no se. E eternamente no quase.
Sim, hoje sinto-me derrotado e inválido. Deitei para o ar o esforço que devia ter sido maior e sei que só vou poder voltar a voar para o ano. E é frustrante ver que as décimas contam, mas a culpa não deixa de ser minha. E a culpa é minha!
Não vale a pena lamentar, claro, mas não deixa de ser algo para pensar. E hoje sinto-me mal. Por mim e porque deveria ser melhor. E se não atinges o potencial ficas assim, frustrado. Eu devia ser melhor.
E agora só preciso de voltar a ganhar vida para o que falta, para pelo menos tentar ser feliz. Mesmo que a vida não me deixe, ou que eu ainda não tenha percebido onde encontrar a felicidade.
sexta-feira, janeiro 18, 2013
quinta-feira, janeiro 17, 2013
A menina que sonhava Pássaros
Oriana sorriu sobre a cama, pequenina e com o seu nome escrito na cabeceira. Adormecia profundamente sobre os lençóis e o travesseiro, sonhando com principes e princesas e outras coisas que cabem na cabeça de uma menina de seis anos.
Sofia pousava o livro d' "A Fada Oriana", conto de Sophia de Mello Breyner, que claro, adaptava para a filha, pois ela ainda pouco sabia ler, pois a infância de Oriana tinha sido passada de maneira diferente de todas as outras crianças. E amanhã voltava a mais um dia desses, que não tinha viagens para a escola, sandwiches feitas pela mãe nem as conversas com os colegas da turma.
As coisas mais aproximadas que tinha eram as auxiliares que tentavam ajudar as crianças a aprender e os livros e brincadeiras que por lá havia. Era duro, e trocava de lugar com a filha se assim se pudesse...
As portas do Hospital Pediátrico abriram-se e a "fada" Oriana entrou pelo seu pé sorrindo como se o mundo fosse o lugar mais belo para ela e agarrando a mão da sua mãe com força. O pai depositava um beijo na testa de Oriana e deixava transparecer um ar sereno, embora já estivesse preparado para ouvir o diagnóstico.
Oriana correu assim que viu a Dr. Hélia e abraçou-se muito a ela. A médica de 33 anos estava ali pronta novamente para receber a criança que já tinha sido sua paciente há 3 meses. E como gostava do cabelo dourado de Oriana! Era de facto uma criança bonita, com feições da mãe, mas os seus olhos eram nitidamente do pai. Sorriu e disse-lhe:
- Como está a minha "fada"?
Sofia e Mário sorriram. A filha estava feliz apesar de tudo e isso era importante.
Levaram-na depois para o pequeno parque onde os meninos brincavam. Eram sobretudo meninos doentes com vários casos de doenças complicadas, mas maior parte deles ia ser curado em pouco tempo. O mesmo talvez não se pudesse dizer de Oriana...
O consultório estava mais frio do que o resto do edifício, ou talvez fosse um frio psicológico que invadia cada centímetro dos seus corpos. A notícia era já esperada há 2 anos entre "rusgas" do Hospital Pediátrico para o IPO e internamentos de várias semanas. O diagnóstico estava lançado...
- Como sabem, a vossa filha não está na melhor situação... e a verdade é que não arranjámos dador compatível. Sabemos que a vossa filha vai começar a enfraquecer e vai ter de se manter por aqui.
Frio.
- Mas doutora, o que podemos fazer nós... alguma coisa... no estrangeiro...
- Eu sei que é dificil de aceitar, mas não há muito que possam fazer pela Oriana... Sei que tu és católica Sofia, portanto rezem e tentem fazê-la feliz. Sempre retarda um pouco a doença e podemos encontrar um dador em qualquer parte...
- Custa-nos tanto...
- Eu sei. E a mim também. Ver uma menina como a Oriana assim... sempre tão alegre e com uma doença tão grave.. Mas estaremos sempre atentos à procura de um dador. E fazer os possíveis pela vossa filha...
- Nós sabemos doutora. Obrigado por tudo...
E aparecia agora a porta Oriana com o sorriso enorme e com o ar irrequieto:
- Papá e Mamã, vamos brincar?
Leucemia.
segunda-feira, janeiro 14, 2013
Gemada na Assembleia
O leitor atento certamente que já foi actualizado de mais uma das quantas batatas que ocorrem todos os dias na Assembleia da Republica (aquela casa em Lisboa onde se sentam não sei quantos senhores a olhar uns para os outros e a discutir sobre o que o resto dos 10 milhões vai receber no próximo ano e, principalmente, o que vai pagar).
Ora Couto dos Santos, deputado do PSD está desiludido com o PS, o que no fundo quer dizer que está contente. Isto notou-se depois de afirmar que o PS não está preparado para governar o país e que mostra demasiadas incoerências e contradições.
O mais grave é que Couto dos Santos tem razão. Posso considerar histórico porque pela primeira vez na minha vida estou a dar razão a um político. Mas não estou só a dar razão, estou também a completar a ideia porque é verdade que o PS não está preparado. E o mais giro é que o PSD também já demonstrou que não tal como o CDS. Salva-se o Bloco que está num emaranhado ideológico e está claramente afastado também da governação. Por último, dos maiores partidos, está o PCP.
E assim vai o estado da governação em Portugal... ah é verdade! Esqueci-me de referir algo sobre o PCP, mas sinceramente, há mais alguma coisa para referir? Afinal a bandalheira é tanta que já não há por onde se lhe pegue. Porque os partidos não estão preparados e começam também a perceber que não querem governar, porque o país está tão arruinado que nem dinheiro há para conseguir desviar. Para desviar pastilhas assalta-se uma mercearia, o que era subir na carreira para alguns.
Primeiro o PS afirma algo muito correcto e bonito que todo o povo concorda e exulta os seus ideais e depois acaba por vir desmentir a ideia com uma ideia parva que o Seguro lá inventou. E é inteligente lembrar-se disso. Afinal quem é que quer governar esta bandalheira?
Pedro Passos Coelho também está a pensar nisto. Primeiro foi obrigado a contrair matrimónio com Paulo Portas e agora o seu partido anda a provocar claramente os partidos dos outros. Parece-me um triângulo amoroso interessante e espero que a TVI aproveite esta história apaixonante da República Portuguesa.
Espera-se agora uma reacção do PS, visto que ambas as crianças gostam do mesmo chocolate e só o papá Cavaco é que pode por um termo a isto dando duas lambadas a cada um (mais devagar em Pedro Passos Coelho, que é o seu filho pródigo) e pondo tudo de castigo. Era um favor que nos fazia pelo menos.
Mas atenção: as medidas que o PS anda a tomar não revelam muita coerência mas revelam sobretudo bom-senso. Afinal é preferível estar a meter para o "bucho" o dinheiro do ordenado dos deputados do que levar mais uns trocos do orçamento de estado... É que arriscar por isso um balázio no bucho ou levar com um ovo na testa, mais vale deixarem caçar o Coelho.
Por falar em ovos e antes que acabe a folha do word, vai ser lançado o primeiro ovo estrelado instantâneo e vai ter patente portuguesa o que se percebe. Afinal com tantos ovos lançados à Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, de José Sócrates alguma ideia havia de surgir... E ainda dizem que o Engenheiro não aposta na inovação tecnológica! :)
Ora Couto dos Santos, deputado do PSD está desiludido com o PS, o que no fundo quer dizer que está contente. Isto notou-se depois de afirmar que o PS não está preparado para governar o país e que mostra demasiadas incoerências e contradições.
O mais grave é que Couto dos Santos tem razão. Posso considerar histórico porque pela primeira vez na minha vida estou a dar razão a um político. Mas não estou só a dar razão, estou também a completar a ideia porque é verdade que o PS não está preparado. E o mais giro é que o PSD também já demonstrou que não tal como o CDS. Salva-se o Bloco que está num emaranhado ideológico e está claramente afastado também da governação. Por último, dos maiores partidos, está o PCP.
E assim vai o estado da governação em Portugal... ah é verdade! Esqueci-me de referir algo sobre o PCP, mas sinceramente, há mais alguma coisa para referir? Afinal a bandalheira é tanta que já não há por onde se lhe pegue. Porque os partidos não estão preparados e começam também a perceber que não querem governar, porque o país está tão arruinado que nem dinheiro há para conseguir desviar. Para desviar pastilhas assalta-se uma mercearia, o que era subir na carreira para alguns.
Primeiro o PS afirma algo muito correcto e bonito que todo o povo concorda e exulta os seus ideais e depois acaba por vir desmentir a ideia com uma ideia parva que o Seguro lá inventou. E é inteligente lembrar-se disso. Afinal quem é que quer governar esta bandalheira?
Pedro Passos Coelho também está a pensar nisto. Primeiro foi obrigado a contrair matrimónio com Paulo Portas e agora o seu partido anda a provocar claramente os partidos dos outros. Parece-me um triângulo amoroso interessante e espero que a TVI aproveite esta história apaixonante da República Portuguesa.
Espera-se agora uma reacção do PS, visto que ambas as crianças gostam do mesmo chocolate e só o papá Cavaco é que pode por um termo a isto dando duas lambadas a cada um (mais devagar em Pedro Passos Coelho, que é o seu filho pródigo) e pondo tudo de castigo. Era um favor que nos fazia pelo menos.
Mas atenção: as medidas que o PS anda a tomar não revelam muita coerência mas revelam sobretudo bom-senso. Afinal é preferível estar a meter para o "bucho" o dinheiro do ordenado dos deputados do que levar mais uns trocos do orçamento de estado... É que arriscar por isso um balázio no bucho ou levar com um ovo na testa, mais vale deixarem caçar o Coelho.
Por falar em ovos e antes que acabe a folha do word, vai ser lançado o primeiro ovo estrelado instantâneo e vai ter patente portuguesa o que se percebe. Afinal com tantos ovos lançados à Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, de José Sócrates alguma ideia havia de surgir... E ainda dizem que o Engenheiro não aposta na inovação tecnológica! :)
quinta-feira, janeiro 10, 2013
Metástase
10-01-2013
Todos os dias passamos por pessoas com quem provavelmente nunca vamos falar. Todos os dias desperdiçamos tempo a pensar naquilo que devíamos ou não fazer e temos medo. O medo é natural.
Temos todos medo da mesma coisa: da estreita relação, da linha ténue que separa a vida e a morte, o diabólico jogo que estamos envolvidos. E desperdiçamos tanto tempo... Eu próprio posso dizer que sim, desperdiço-o, preocupado com tantas coisas, ou jogando também psicologicamente sobre os comportamentos dos outros... Somos todos assim, está-nos na massa sanguínea e na função cerebral.
A primeira vez que mais afincadamente quis vir para a saúde foi há dois anos. E tive dois casos nestes últimos dois anos: os meus dois avôs faleceram, embora já com uma idade grande, a motivação para saber o que está por trás de todos aqueles problemas que tu não consegues entender foi maior.
Talvez a enfermagem fosse o caminho mais próximo do doente, mas se me perguntarem o porquê da radiologia eu digo: não era a primeira opção. A primeira opção era mesmo na faculdade de Farmácia da UC e o objectivo era a investigação. No entanto, acabei por "cair" na radiologia. E porquê? Somos nós que estamos lá maioritariamente quando detectamos um cancro. Somos nós que vamos estar lá, maior parte das vezes sem tocar no paciente e resultar de um diagnóstico. Somos os primeiros a saber provavelmente.
Mas talvez os acontecimentos que sucederam depois da minha entrada no Superior tenham sido provavelmente aqueles que mais ligados estão com a minha profissão.
Veres um amigo teu crescer sabendo que o pai tem uma doença sem cura, com capacidade degenerativa e sem puder fazer muito por isso. Uma pessoa que conheces desde sempre, não só o teu amigo como o pai dele. E depois como que uma coisa repentina, que no fundo toda a gente está à espera, acontece. Aconteceu a morte, sim, mas não nos podemos esquecer como as pessoas lutaram contra isso, com todas as armas, e como a própria mulher algum tempo depois acaba por ter um cancro abdominal que foi rapidamente diagnosticado e tratado. Lutadores como estes ensinam-nos todos os dias.
E pronto, chegamos à data fatídica de hoje.
Podes não ter conhecido exactamente os primeiros anos daquela pessoa, mas o últimos foram certamente os melhores. Já sabíamos que as coisas não estavam fáceis... o diagnóstico tinha sido terrível, mas houve uma recuperação. Depois a quebra novamente.
É quase em estado de choque que recebes estas notícias, porque não contas. Imagina-te sem uma mãe ou sem um pai com 19 ou 20 anos, ou até mais cedo. Aquela pessoa que sempre te viu crescer, que sempre esteve lá, mais do que qualquer outra no mundo. E agora? Vazio.
E esse vazio precisa de ser preenchido por memórias boas, recordações brilhantes e o carinho de alguém que partiu e que se não estiver noutro sítio, há-de estar pelo menos na memória.
É duro. É a vida. Mas aí temos de encontrar força no bem que essa pessoa no quis!
E são estas experiências que traçam o nosso caminho, que nos mantêm vivos e nos fazem pensar na maneira como fazemos as coisas e desperdiçamos o tempo.
Ao João Freitas e ao Gabriel Lopes.
terça-feira, janeiro 08, 2013
Black
As nuvens cinzentas que se punham sobre São Jacinto, faziam antever um final de tarde desesperante, talvez molhado, talvez seco, com temperaturas para casacos e roupas quentes, não fosse Janeiro, nesse fatídico ano de 2001.
A voz da rapariga dos cabelos castanhos estava agora mais longe, talvez no meio de outra cidade, de outro local que não a areia da praia ou as plantas rasteiras das dunas, paisagem protegida...
Ela tinha partido, faziam umas 3 horas e eu ainda estava imóvel, como uma rocha, disposto a não arredar pé daquele sítio, como se não quisesse aceitar a realidade, como se quisesse que o sonho não acabasse e manter viva a chama...
A rapariga dos cabelos castanhos não tinha sido dura... tinha sido apenas igual a si própria, sem saber bem o que falar, olhou-me nos olhos e disse, aquilo que ninguém quer ouvir:
- Eu não posso continuar isto...
O meu ar de estupefacção foi total, como se de um livro aberto me tratasse passando por mim as mais variadas sensações. Depois de semanas sem quase falarmos ela decidiu abrir o jogo e logo desta maneira...
- Tu não podes?
- Não, não posso. Eu queria que tu te preocupasses mais, que me dissesses mais aquelas palavras que antes davam um clique ou que apenas estivesses lá. Mas não. Desde que viemos de Itália que pareces assim, mais distante, como se não te quisesses envolver demasiado com medo do que os outros possam dizer!
- Medo? Eu não tenho medo!
- Tens. Medo de te magoares.
Era um pouco verdade. Mas eu precisava também de sentir algo mais, da preocupação dela, do jeito dela que pareciam ter desaparecido...
- E tu?
- Eu?!
- Sim. Quantas vezes desde que viemos de Itália que me perguntas-te como estava? Quantas vezes ligaste a perguntar alguma coisa? Sou só eu? Porquê? Porque sou homem é que me tenho de preocupar e tu nada?
- Estás a ser injusto... tão injusto!
- Injusto ou não eu também sinto isso... e não podia ter sido mais expressivo.
- Tudo bem. Faz como quiseres...
E talvez eu devesse ter corrido atrás dela, mas as forças obrigaram-me a contemplar a ria, e aumentar o seu caudal. Custa admitir que não se está bem ou que se esperou outra atitude e isso magoa, vezes e vezes sem conta. E às vezes sofrer muito não é desculpa.
Talvez tivesse sido duro, talvez eu próprio deveria ter ligado, mas o orgulho não me deixou, porque sentia que ela tinha-se desligado primeiro, apesar de agora estar a remoer e a ponderar falar de novo com ela, sempre a pensar o que dizer, como dizer e na maneira de encerrar o assunto. Talvez ela tivesse mesmo acabado tudo ali e eu não tivesse percebido... talvez houvesse outro... ou talvez eu não fosse suficientemente bom para ela. Bolas!
As luzes do Astra 1.4 acenderam-se e eu parti rumo a A25. A viagem fez-se mais rápida, embora tivesse parecido uma eternidade. Quando dei por mim estava a passar junto à placa de Tondela no Ip3 rumo ao destino. Já era noite e caía uma chuva miudinha normal para a época. Os termómetros indicavam os 3 graus e no Caramulo já havia uma mancha de neve, embora pequena...
Depois de acender a lareira, sentei-me a escrever o livro que tinha prometido apresentar um dia mais tarde a uma editora, segundo conselho da prima mais velha. Não estava fácil pensar em romances históricos quando a minha vida tinha pregado uma chapada...
Trim-trim.
O telefone.
Talvez fosse a minha mãe a perguntar o que tinha feito para o jantar ou se estava muito frio aqui, ou então o meu irmão a pedir-me alguma ajuda para um cartaz... e eu sem paciência...
Retirei o auscultador e atendi.
- Olá.
A voz era inconfundível, até porque tinha ecoado toda a tarde na minha cabeça... Era ela! Será?
- Olá... olha! eu quero...
- Xiuuu!
Cortou-me a voz. Que queria ela afinal?
- Então?
Silêncio. E em surdina:
- E se começássemos tudo de novo?
E riu-se como uma criança a quem tinham devolvido a sua boneca preferida.
A voz da rapariga dos cabelos castanhos estava agora mais longe, talvez no meio de outra cidade, de outro local que não a areia da praia ou as plantas rasteiras das dunas, paisagem protegida...
Ela tinha partido, faziam umas 3 horas e eu ainda estava imóvel, como uma rocha, disposto a não arredar pé daquele sítio, como se não quisesse aceitar a realidade, como se quisesse que o sonho não acabasse e manter viva a chama...
A rapariga dos cabelos castanhos não tinha sido dura... tinha sido apenas igual a si própria, sem saber bem o que falar, olhou-me nos olhos e disse, aquilo que ninguém quer ouvir:
- Eu não posso continuar isto...
O meu ar de estupefacção foi total, como se de um livro aberto me tratasse passando por mim as mais variadas sensações. Depois de semanas sem quase falarmos ela decidiu abrir o jogo e logo desta maneira...
- Tu não podes?
- Não, não posso. Eu queria que tu te preocupasses mais, que me dissesses mais aquelas palavras que antes davam um clique ou que apenas estivesses lá. Mas não. Desde que viemos de Itália que pareces assim, mais distante, como se não te quisesses envolver demasiado com medo do que os outros possam dizer!
- Medo? Eu não tenho medo!
- Tens. Medo de te magoares.
Era um pouco verdade. Mas eu precisava também de sentir algo mais, da preocupação dela, do jeito dela que pareciam ter desaparecido...
- E tu?
- Eu?!
- Sim. Quantas vezes desde que viemos de Itália que me perguntas-te como estava? Quantas vezes ligaste a perguntar alguma coisa? Sou só eu? Porquê? Porque sou homem é que me tenho de preocupar e tu nada?
- Estás a ser injusto... tão injusto!
- Injusto ou não eu também sinto isso... e não podia ter sido mais expressivo.
- Tudo bem. Faz como quiseres...
E talvez eu devesse ter corrido atrás dela, mas as forças obrigaram-me a contemplar a ria, e aumentar o seu caudal. Custa admitir que não se está bem ou que se esperou outra atitude e isso magoa, vezes e vezes sem conta. E às vezes sofrer muito não é desculpa.
Talvez tivesse sido duro, talvez eu próprio deveria ter ligado, mas o orgulho não me deixou, porque sentia que ela tinha-se desligado primeiro, apesar de agora estar a remoer e a ponderar falar de novo com ela, sempre a pensar o que dizer, como dizer e na maneira de encerrar o assunto. Talvez ela tivesse mesmo acabado tudo ali e eu não tivesse percebido... talvez houvesse outro... ou talvez eu não fosse suficientemente bom para ela. Bolas!
As luzes do Astra 1.4 acenderam-se e eu parti rumo a A25. A viagem fez-se mais rápida, embora tivesse parecido uma eternidade. Quando dei por mim estava a passar junto à placa de Tondela no Ip3 rumo ao destino. Já era noite e caía uma chuva miudinha normal para a época. Os termómetros indicavam os 3 graus e no Caramulo já havia uma mancha de neve, embora pequena...
Depois de acender a lareira, sentei-me a escrever o livro que tinha prometido apresentar um dia mais tarde a uma editora, segundo conselho da prima mais velha. Não estava fácil pensar em romances históricos quando a minha vida tinha pregado uma chapada...
Trim-trim.
O telefone.
Talvez fosse a minha mãe a perguntar o que tinha feito para o jantar ou se estava muito frio aqui, ou então o meu irmão a pedir-me alguma ajuda para um cartaz... e eu sem paciência...
Retirei o auscultador e atendi.
- Olá.
A voz era inconfundível, até porque tinha ecoado toda a tarde na minha cabeça... Era ela! Será?
- Olá... olha! eu quero...
- Xiuuu!
Cortou-me a voz. Que queria ela afinal?
- Então?
Silêncio. E em surdina:
- E se começássemos tudo de novo?
E riu-se como uma criança a quem tinham devolvido a sua boneca preferida.
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