segunda-feira, julho 16, 2012

Rain Dance


Olhei para o céu hoje à noite e vi um lua grande e redonda, uma pérola perfeita nesse mar que é o céu. Ao redor da lua percorrendo todo o céu vi, lanternas em torno de barcos navegantes, a que os homens chamam estrelas. Algumas caiem durante a noite, como naufragos no mar e desaparecem, talvez por se dedicarem à pesca submarina.
Mas as estrelas que teimam em bailar nos seus olhos são outras, estrelas que nada têm de luz, nada têm de brilhante. Elas bailam e acabam por cair como essas estrelas cadentes, submissas a um destino. O destino, esse, é o pano cinzento, composto de prismas quadrangulares que chamamos chão. Derrama-se o rio sobre as rochas mais pequenas, queixa-se o mar das estrelas que cairam.
Na nascente orbitam, no chão de mármore, esferas de basalto e velhos pedaços de madeira, com folhas de plátano. No canto da nascente existem pequenas esferas que saem do plátano, cor torrada que deixam comixão na pele. Debaixo da nascente há plataformas que provocam um efeito de cascata, como que uma "cachoeira", onde se acumulam noites de luar, rios escondidos e pequenos caudais de água.
As noites estão maiores e a lua apenas soluça no seu movimento. O calor faz as estrelas encadearem sobre a superficie do mar e aterram algumas como naves espaciais, desfeitas pelo calor térmico da atmosfera. Nas nuvens, o racional contar das correntes marítimas, do ascender do ar quente e do controlo dos aguaceiros, discerne-se uma questão: o que provoca essa chuva incadescente de estrelas no meio da noite? Há algo no meio do mar remoto que nos indique a possibilidade de essas estrelas apenas nos iluminarem e apontarem um caminho?
O mar, revoltado e inconstante, não nos responde. Ele guarda o segredo do ser, aquilo que irracionalmente a atmosfera cria: a imprevisibilidade constante, o efeito borboleta das consequências pequenas se transformarem em catástrofes. Um novo Titanic, um novo iceberg, um navio sem fundo, o soltar das tábuas de uma arca de Nóe: o dilúvio.
Estudamos tudo dele. Condições do vento, tantas e tantas ondulações, pequenos remoínhos, mas esses estudos são inconclusivos como quem estuda uma esfera grande e não a pode conhecer por dentro, como que um núcleo maciço e rochoso se tratasse. Os geólogos apenas descrevem os fenómenos, e as placas tectónicas movem-se no fundo do mar. Fluído ou rochoso? Todos eles passam pelos dois estádios, mas destinguem-se consoante o tempo que passam em cada um.
É por isso que os oceanos não têm propriamente fronteiras, as camadas da terra distinguem-se por descontinuidades, sendo incerto cada ciência que estudamos, cada passo que damos.
O mar hoje está mais calmo... as estrelas brilham, e nada parece prever a catástrofe, mas nunca se sabe quando Neptuno resolve mexer no seu tridente e, no alto mar as correntes movem-se, os ventos sopram com força e de novo bailam as estrelas sobre a lua...
E aí, a rapariga dos cabelos castanhos fecha a porta, apaga a luz do quarto e deixa cair as estrelas sobre o chão.

sábado, junho 30, 2012

Insónia

Desculpa.
Mesmo sem culpa, peço desculpa.
Estás fria, sem alma.
Dizes que mudei, que não sou o mesmo.
Mas perco a calma,
Quando tu já não subrepões sobre a minha palma,
Qualquer resto de ti.

Tenho saudades de princesas,
Contos de histórias, resmas de reis,
Sapos doidos malucos,
Principes guerreiros astutos,
Blocos de notas, livros, papeis,
E barcos navegados por comandantes brutos.

Memórias invocadas,
Rias navegadas, no septo do coração,
Na crossa da aorta, na minha veia porta,
Já não sei onde anda a razão
Saudade, é bem escrita,
Numa pequena cabanita,
Junto à raiz do coração.

E eu mudei?
Talvez o tempo me desgastou,
Fez-me mais forte, mais racional,
Mas também te tornou emocional
Como um raio de chuva que não cai
Uma corrente que não vai,
E o vento que não levou,
Sinto-me perdido, caido,
O meu coração voou,
Mas a Saudade, ficou.

quarta-feira, junho 20, 2012

A Grandeza de sermos Pequenos: crónicas do Euro'12



17 de Julho de 2012. minuto 73. (2-1)
Um nome, um momento, o segundo golo de Cristiano Ronaldo fez-nos levantar em nossas casas, praças, cidades, loucos de alegria. Estava consumada uma reviravolta anunciada, sempre sofrida, bem ao jeito lusitano, mas merecidissima. Nessa noite já ninguém dormia na sala porque os Quartos eram nossos, e mandavamos de uma assentada Dinamarca e Holanda para fora do Euro. Ao mesmo tempo eliminar a selecção que ficou a nossa frente na fase de qualificação e a vice-campeã mundial é obra. Mas as vezes somos demasiado queixosos. Somos um país pequeno com prestações altissimas a nível futebolistico. É preciso recordar que sempre que fomos a fase final, passámos da fase de grupos do Europeu, e sim, nisso somos únicos, recentemente fugidos à Holanda que era a nossa acompanhante nesta façanha incrivel.
Ronaldo calou críticas, mas precisamos de recordar que não foi único. Houve um João Moutinho a tocar em todo o terreno uma orquestra que fez dos postes e de Stakelenburg (corrijam-me se estiver errado) um bombo lançando e bombardeando a sua baliza. Pepe continua, esse sim, gigante. É sem dúvida o melhor central do Euro, tirando tudo o que há para tirar e ainda criando situações de perigo iminentes, como a bola que esbarrou na barra da baliza germânica no jogo inaugural.
Críticas respondeu também Paulo Bento ou P.B., como gostam de adoptar agora nessa moda jornalistica de usar iniciais, talvez libertando um pouco a mente do que lhe vai na cabeça, e fazer perceber a união que existe e continuará a existir. Pena foi os jogadores recusarem-se a falar, embora com a sua razão na causa que defenderam, mas aposto que milhares de portugueses os queriam ouvir, a derramar palavras de felicidade sobre multidões que exultavam os heróis de Kharkiv.
Declarações bombásticas, e que embora não tenham sido ainda devidamente exploradas, são as de um tal de Platini, prevendo uma final "Alemanha-Espanha", ficando desiludido com a "Laranja" ter saído do Euro e ainda com pena dos dinamarqueses. De Portugal não falou ele, nem de outros países. Imparcialidade minima devia haver, mesmo claro, podendo torcer pela "sua" França, mas agora apoiar outras selecções?! Afinal a Uefa apoia elitismos? Há resultados feitos?
Pois, relacionado ou não com isso, estão vários casos, como beneficios à Polónia que pareceram evidentes, principalmente com os gregos, golos limpos anulados à Ucrânia frente a Inglaterra (o que fazem os árbitros de baliza?!) ou mesmo claros penalty's não assinalados a favor da Croácia contra a poderosa Espanha. Mereciam mais Ucrânia, Croácia e a própria Rússia, a maior surpresa da eliminação, pois foi bem mais afoita que a Holanda.

Com tudo isto restam-nos os Checos. O que esperar?
Um bom jogo, uma vitória em teoria (embora muito muito cuidadinho nas boas transições checas de Pilar e companhia), e nada de toques artisticos de Poborsky.

FORÇA PORTUGAL!!

terça-feira, junho 19, 2012

Saudade 2.1



Um dia a porta da rua abriu-se
A cidade despiu-se,
O reinado já quase acabou.

Os loucos advém e,
Batem à porta de quem,
A isto os levou.

Já nem o chicote os leva,
Já nem o bom senso os move
Quem a palavra é treva,
Num universo mais pobre.

O natural sentido da vida mundana,
A rotina incansável,
O rosto intocavél,
Na voz de porcelana.

Já não chama por mim à noite,
Já não diz que me ama,
A loucura em mim instalou-se
E a saudade complicou-se.

Há um vazio de ti,
Neste mar a dois,
Um toque de gelo,
A ponta de um icebergue,
Ao teu coração entregue,
Ao qual lanço sempre o meu apelo,
Mas nem responder a isso,
A tua saudade consegue.

Até saudade já faz a resposta torta,
O bater de uma porta,
Discutir a carne, o pão e o peixe,
Enquanto bebo mais um trago de vinho,
Vou correndo travar a porta...
Antes que ela se feche.

quinta-feira, março 22, 2012

A vida faz-se de sonhos...

Um dia lembro-me de escrever sobre uma tal "rapariga de cabelos castanhos", e imaginá-la como um sonho que passa rápido numa nuvem. Talvez mais ou menos à um ano, comecei a escrever aqui e numa rede social, crónicas dessa rapariga. Acreditem ou não eu encontrei-a.
Mas nem se quer é isto que me causa mais surpresa... A surpresa maior é elas serem tão parecidas. A rapariga dos cabelos castanhos não é apenas um produto dos meus sonhos, ou então a minha vida tornou-se nesse produto. A mesma cor, o mesmo tom de voz, a mesma comunicação, o sorriso e até a própria vida é idêntica às palavras que faziam esses textos. Ela é produto de mim, ou eu produto dela.
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O meu quarto está vazio, a mala ao canto, as prateleiras cobertas de apontamentos e livros sobre protecções, intensidades e fotografias escuras médicas. Procuro ajeitar a cama, arrumar as sapatilhas do jogo de futebol e escuto as conversas que vem da rua. No pensamento já está a viagem que faço hoje, procurando sair e exilar-me por algumas horas do mundo. É sexta-feira, e a rapariga de cabelos castanhos procura-me num ápice, desenhando histórias e escrevendo no meu mundo com cores de amarelo e azul, olhando o céu redondo no horizonte, onde o sol se despede com um "até já", prometendo um breve descanso à guarda da lua.
Olho em volta e vejo fotografias de tempos felizes, de olhares distantes e alegres, de pensamentos brilhantes sobre homens e mulheres que o tempo levou, ou por este motivo, ou por aquele... Sinto-a abraçar-se a mim e olhar para as molduras, dizendo-me qualquer coisa impreceptivel. Sei que não está bem, sei que lhe custa ainda ouvir os paços dele no soalho da casa, ou a voz rouca e grave com que lhe diria bom-dia. Mas no final de contas, ela fez aquilo que de mais correcto podia fazer, e eu orgulho-me disso.
Procuro-a na moldura e comento a doçura da sua figura de criança, do sorriso sincero e mimado que fazia. Ela escuta-me longe, procurando o presente e deixando o passado de parte. E aí, ela olha-me nos olhos, procura-me na voz e vivemos o presente, na prespectiva de um futuro, de um tempo melhor que nos faça levantar todos os dias com a força da alegria. E o meu olhar dissolve-se no dela, permanecendo como o universo. Eterno.