quarta-feira, fevereiro 27, 2013

The Last Chapter.


Era noite cerrada, no último dia de Verão e pouco conseguia dormir.
Aquele Setembro não tinha sido sem dúvida o melhor que já tinha tido, e os maus presságios continuavam a tornar-se cada vez mais evidentes. Chovia nessa noite, estranhamente, uma chuva violenta e um trovejar tempestuoso.
Tinha estado a escrever até altas a horas, investindo o meu pouco sono naquilo que mais gostava e que mais precisava no momento. A rapariga dos cabelos castanhos tinha dormido em casa dos país, embora eu preferisse que ela tivesse ficado por aqui, tinha de respeitar a sua vontade. Talvez se quisesse sentir mais perto deles, já que apenas o pai conheceu durante alguns anos da sua vida...
Há muitas coisas que não compreendia ainda dela, mas que achava que talvez não o pudesse compreender, porque essas coisas lhe diziam respeito ao seu intimo e com o passar do tempo ia acabar por perceber porque fazia ela as coisas dessa maneira.
Bip-bip.
O telemóvel vibrava na mesinha ao lado. Aquela hora...
- Sim?
- Estou?
- Então? Não me digas que estás com medo da trovoada?
- Ahhhhhhh... um bocadinho, sim.
Sorri. Já estava a espera do telefonema dela, porque em noites de trovoada sei que tinha sempre de pedir protecção.
- Acordei-te?
- Não. Estava para aqui a escrever, sem sono.
- Já conheço essas noitadas. Pelo menos não foste sair com outra, pelos vistos.
- Olha que tola! Na verdade, fui.
- Foste?!
- Claro. Levei a tua cadela à rua, passear.
- Com essa estás a vontade!
E rimos os dois. Mas o tom de voz dela mudou repentinamente.
- Há uma coisa que vou ter de fazer...
- Uma coisa?
- Sim...
- Então?
- Não te preocupes, tudo vai ficar bem.
- Sabes que gosto que confies em mim...
- Então confia apenas que vai ficar tudo bem.
- Okay, está bem.
Silêncio.... Teria desligado?
- Tenho saudades...
- Saudades?
- Tuas! Nossas.
- Mas só foste hoje aí, eu prometo-te que amanhã estamos juntos outra vez. 
- Sim... tenho de desligar. Um beijo enorme.
- Um beijo para ti também.
Desligou. 
Preocupava-me aquela conversa, aquelas hesitações... Bem amanhã de certeza que poderia tirar tudo a limpo, e perceber o que se passava com ela...

Acordei. Tinha dormido pouco, com um pressentimento estranho. Tentei ligar-lhe e não atendeu. Poderia estar a dormir ainda... então deixei mensagem.
A viagem de carro foi rápida, procurei andar depressa. Alguma coisa se passava! A viagem de meia hora transformou-se me 15 minutos, visto que não havia trânsito aquela hora da manhã. Parei o carro, e não encontrei o da rapariga dos cabelos castanhos... Talvez estivesse na garagem.
Tentei tocar à campainha e dei com uma chave da parte de dentro da campainha, numa portinha pequena onde era possível aceder ao funcionamento da mesma. A chave abriu a porta.
E então entrei...
Não havia sinais dela. Talvez nem tivesse dormido ali, ou pelo menos partira cedo. O que se passava?
O telemóvel estava ocupado e as mensagens não foram entregues...
- Um bilhete!
Estava ali em cima da mesinha de cabeceira do antigo quarto dos pais.
"Ninguém pode entender as razões que me levaram a fazer isto. Não penses que és o culpado, apesar de saber que te culpas e de te sentires destroçado neste momento. Tenta ganhar algum alento, tu mereces ser feliz. Um dia vais perceber o porquê de tudo isto. Eu poderia ter esperado por ti para me despedir, mas não conseguiria fazer sem chorar e sem pensar em querer ficar, porque não posso. Vais  ter notícias minhas em breve, tenho a certeza. Enquanto isso cuida dos pequenos, tenho a certeza que a tua mãe te ajudará, ela é uma grande senhora. Não te peço que te prendas, se quiseres encontrar outra pessoa, mereces isso. Se há alguém que sonho na eternidade é ao teu lado.
Contigo. Um beijo.
Para sempre,
Rapariga dos Cabelos Castanhos, como carinhosamente me chamas"

E mais tarde percebi tudo isto. Poucas horas depois recebi um telefonema. Ela tinha sido encontrada sem vida, com uma overdose brutal de Barbitúricos, como um passarinho. Não foram nada fáceis estes dias, mas depois da autópsia percebi o porquê: a operação de remoção do tumor não tinha sido eficaz e criaram-se e espalharam-se metastases, e ela fingiu estar tudo bem por muito tempo, faltando aos tratamentos percebendo que já não era possível salvar-se. Não quis que assistíssemos à sua degradação, e optara por aquele caminho. Tinha de respeitá-la...
E agora recordo apenas alguns episódios que se passaram felizes ou mais tristes, mas que fizeram da minha vida melhor. Porque eu quis recordá-la como uma heroína. 
Em algum lugar ela estará...

"Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada." (Fernando Pessoa) 

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Gaza

8 da manhã, Jibaliya, Refugee Camp, Gaza Strip.

Ismail, dez anos, já viveu por o dobro da idade. O seu pai, pertencente ao braço armado do Hamas, possivelmente ligado à Al-Qaeda e contra todo o poder e domínio do ocidente está desaparecido e ninguém sabe do seu paradeiro. Ismail recorda as últimas palavras de Abdullah:
"Comer a carne de tão sujo animal como o porco é um crime Ismail. Não te aproximes de nenhum, nem o deixes pisar o nosso solo como o fazem os imundos do outro lado da barreira."
O ensinamento vinha das escrituras muçulmanas e também partilhadas em parte pelos Judeus de Israel, mas a opinião de quem vive em conflito é diferente, pois os judeus maneiras arranjaram de fazer negócio sobre este assunto. Ismail não entendia muito disso, mas sabia o que eram rockets, grandes barulhos e confusões envolvendo AK-47 e outras tais. Era normal a presença de pistolas mesmo no campo de refugiados.
Ismail pedia a uma senhora de bata branca que lhe fosse chamar o pai.
- Meu querido, eu depois de tirar estas fotografias aos senhores vou lá. O teu pai acho que estava ali na ala da frente, mas pode ter sido transferido. Olha pega lá este rebuçado.
As palavras em árabe rudimentar foram suficientes para acalmar a criança. Maria Eugénia, radiologista em missão de voluntariado, estava há alguns meses no cenário de Gaza. Era portuguesa e como não tinha marido nem filhos resolvera partir para esta missão. A criança que acabava de receber o rebuçado era de uma adoração por Maria, e ela gostava de poder levá-lo daquele cenário e deixá-lo crescer feliz...
E o pai? Um terrorista. Todos sabiam mas ninguém podia dizer nada, pois arriscavam a vida. E mal a criança sabia...
- Susane?
- Yes, dear.
- Levas o menino? Eu já vou falar com ele.
- Sim, está à vontade.
Era preciso prepará-lo...
Algum tempo depois, a ala direita da enfermaria estava mais livre e chamou então Ismail. Acendeu a televisão e a notícia disparou para os olhos da criança, que habituada aquilo não lhe ligou muito.
Um carro armadilhado e um bombista suicida explodiram 30 km a norte de Gaza, numa pequena aldeia, dizimando mais de 20 pessoas, ao que tudo indica Judeus. Mas a criança paralisou os olhos quando saltou à vista um nome: Abdullah.
E depois um vídeo de alguém com a cabeça tapada declarando e reivindicando o atentado. Nada de estranho, não fosse a voz reconhecidamente do seu pai...
- Ismail...
- O meu papá? Onde está ele?
- O teu pai foi ter com Alá. Eles queriam encontrar-se rapidamente, ele lá estará bem, certamente no paraíso...
- Mas foi o papá que fez aquilo?
- Ele acreditou que o mundo ficaria melhor para ti, se isso acontecesse, e como saberias rapidamente que ele fora o causador, eu decidi que soubesses em primeiro que alguém te contasse.
- Mas o papá não é mau!
- O teu pai acreditava nisto. Eu sei que ele o fez para te proteger...
Era dificil, o menino ainda era muito novo para perceber...
- Mariah?
- Sim, meu pequenino?
- Cuidas de mim?
- Claro pequenino, com todas as minhas forças.
- E o papá?
- Não volta, mas sei que vai estar lá em cima a torcer por ti.
- Eu não quero ser como ele... Sei que ele era mau...
- Não! Ele apenas acreditava num mundo diferente, e talvez tenha percebido mal ou alguém o obrigou a fazer isto...
- Quero ser como tu... ajudar pessoas...
- E vais ser pequenino. Não vou deixar que te magoem.
E choraram, juntos, a escolha de um homem.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Little Time


This is the time,
This is the word,
This is my choice
My accord.

People say: Mistakes never die.
And I go back for the last chance.
For the last dance,
With your smile.

Growing Trees,
Brake the shadows.
And you never will be free
In the end, broken smiles,
Tears chosen or the pure happy .
Will see.

The train goes ahead,
Never forget the ticket,
It's one last chance,
On your life, don't forget.

domingo, fevereiro 17, 2013

Express(ões)

Era simples?
Era. Bastava falar.
Era bom?
Era. Bastava partilhar.
Mas consentimos ficar calados, na mais profunda dúvida...
Mentira. Eu abri a porta, mas não estava ninguém. Ou se estava, estava nos arbustos escondida. E eu não vi, pois teria a vontade suficiente para te arrancar dos arbustos e trazer-te para a fogueira da sala de madeira, da casa que não tem paredes. E sim, talvez seja a palavra desistir que mais percorra o ar da minha atmosfera, porque para mim, basta...
Esperava mais, espero mais, sou exigente, não quero, nem queria que assim fosse diferente. Queria que fosse exactamente como é para que eu saiba se é realidade. Pois eu não sei... e mais que não saber tenho a certeza de não saber o que tu és, como és. É difícil compreender? Pois, não temos sido claros.
E chega a hora de dizer basta, de deixar os outros correrem atrás de ti, porque eu não posso. Não posso correr quando o faço de jeans e t-shirt e os outros parecem destinados a vencer com as sapatilhas de marca e os calções de fibras-não-sei-quê. Sou fraco? Sou. É evidente, mas prefiro chamar cauteloso, porque nem sempre foi fácil viver magoado, o que me tornou orgulhoso. A sério, eu tentei. Tentei abrir a porta. Mas o hall ainda só tem as minhas botas encostadas a um canto e nem há sinais sequer do teu perfume.
E não vale a pena escrever muito mais sobre aquilo que não tem história. Eu tentei de alguma maneira fazer parte da tua, mas o livro parece demasiado grande para assumir a personagem principal... 

Não faz mal, vou esperar para que saia o filme!

E vou esperar sobretudo que o guião mude, ou então que mude eu o guião. 
O teu ou o meu? O dos dois, pois se mudar o meu vou mudar o teu e se mudar o teu, vais mudar o meu. 
E opiniões e criticas? Vão surgir, muitas e muitas, mas não me preocupa se eu sou demasiado isto ou demasiado aquilo, se devia fazer isto e aquilo.

Porque eu é que escrevo o meu guião. E já decidi que vai ter um final feliz.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A Rapariga dos Cabelos Castanhos: Zero

Decidi começar a escrever de novo, pelo principio e sem crónicas soltas sobre ela. E o primeiro ponto é ainda antes de nos conhecermos, o que começo por deixar no ar a dúvida: será esta rapariga real? Claro que as histórias são deturpadas pelo menos, porque escrever sobre Siena e Nova Iorque sem lá por os pés é mais complicado. Mas e se ela existir? Ou talvez ela revele facetas diferentes de raparigas diferentes. Ou seja apenas uma que possa ser a ideal. Pois, isso ninguém saberá, mas a verdade é que escrever sobre ela deixa-me mais aliviado, mais reconfortado com o destino que leva a minha vida, e também exprimir o que mais gosto de fazer, a escrita. Mas está na hora de voltarmos ao início: 

Capítulo Zero - Acasos e Dúvidas

Ninguém pode dizer ao certo qual o momento exacto em que comecei a gostar da rapariga dos cabelos castanhos, mas posso pelo menos lembrar-me de quando a conheci.
O céu dessa noite era estrelado, as luzes da cidade iluminavam as artérias principais e tudo era unificado no mar de estrelas que cobria a noite. Prometia grande festa nessa altura, e eu já tinha ouvido falar aqui e acolá daquela rapariga. Não tinha prestado particular atenção ao início confesso, mas depois do que aconteceu instalou-se uma nostalgia e uma responsabilidade sobre ela. Eu era jovem, tinha sonhos, ideias diferentes, mas tinha sobretudo uma coisa na cabeça: certezas. Tinha certezas que não queria levar uma vida de curtes e namoros interesseiros, tinha certezas no que queria, quando queria, tinha certezas do que ia fazer, mas a confiança interior muitas vezes não se revelava no exterior e isso era prejudicial...
O nome dela, como já perceberam, não vou revelar, mas podia ser qualquer um porque o fascínio estava noutros detalhes que por vezes nem consigo descrever. Nem era o físico, nem sei se era o psicológico, mas quando se gosta não se olha muito a essas coisas, porque há algo que nos desperta, e eu ficava mudo cada vez que a via ou estávamos perto por algumas ocasiões. Faltava-me confiança, e outros assuntos ainda podiam piorar.
Nessa noite as coisas ficaram por um beijo, e talvez não tenha sido o melhor inicio, mas eu precisava de manter o contacto, de criar oportunidade, de tentar... tentar!
As coisas não passaram de conversas espontâneas durante alguns meses, e eu associei a espera ao tempo que precisava ela para se recompor, tanto como eu, que vinha de uma relação difícil, e as coisas não estavam bem. Não, não a usei nessa noite. Tenho a certeza que me deslumbrei pelos olhos redondos e pelos cabelos longos e castanhos. Havia algo diferente.
E por vezes o destino, para quem acredita nele, prega-nos estalos, bombardeia-nos com dúvidas, e eu nessa fase tinha imensas dúvidas, porque precisava que ela me respondesse... No entanto eu não podia ir depressa de mais porque ia acabar por estragar tudo.
Não foi fácil, nesta fase ela já tinha de certo conhecido outras pessoas, feito outras amizades e eu não me habituei a isso, vendo cada pessoa que preenchia a vida dela como um ocupador do espaço que queria ser eu a preencher. E ver outros rapazes a aproximarem-se foi duro, muito duro...
Mas eu tinha de continuar a ser forte, e por uns tempos esqueci-a, como que um brinquedo que tens dentro do teu baú há anos e não o usas com medo de partir. Sim, eu deixei que outros ganhassem a corrida por ela, embora eu não soubesse se ela os ia aplaudir na chegada à meta... 
E sempre acalentei o sonho de poder voltar a tê-la comigo, como naquela noite. Não desisti secretamente, e talvez por isso tenha sido recompensado mais tarde, mas no entanto tinha de viver a vida e deixá-la viver enquanto me mantinha forte e sabia que tinha várias armas que podiam pelo menos manter-me assim. 
E usei-as todas, e talvez por isso, uns tempos mais tarde aconteceu o que aconteceu... mas isso é tema para outro capítulo.