quarta-feira, abril 30, 2014
As nossas mãos
(...)
Anoitecia mais uma vez. Sobre o rio, a vaga luz que descia do céu reflectia como um vulcão incandescente e intenso amarelo torrado de final de tarde, espreitando por entre as nuvens cinzentas que previam uma chuva miúda na próxima madrugada. Mas não ia chover agora.
Na grade junto ao rio, as mãos deslizavam suaves por entre o corrimão que fazia a fronteira entre uma queda na horizontal de uns bons metros no rio. Nesse dia, vestias um vestido claro, com uma camisola de seda, verde e usavas aqueles sapatos que comprámos uma vez nas nossas voltas de domingo à tarde.
- Tenho medo...
Se já muito tinha escrito sobre os medos da rapariga dos cabelos castanhos, hoje sentia mais um, mais uma vez a mão dela insegura a tremelicar, com os lábios expectantes e os olhos cravados entre o rio e o por do sol, na parte mais profunda do horizonte.
Olhei-a de novo, com o carinho de sempre, com a ternura que, por mais que tentasse transmitir, me parecia pouca e disse-lhe:
- Chiuuu! Eu estou aqui.
E por mais tempo que passasse, eu sabia. Sabia que não havia alguém que me pudesse transformar o chão como as pegadas daquela rapariga, nem que os seus olhos castanho escuros se dissolvem-se numa lenta manhã de nevoeiro, pois as suas lágrimas apenas se podiam comparar ao orvalho da manhã.
Mas eu não queria essas lágrimas. Preferia os dias de sol de Agosto, radiantes e convictos como a beleza do seu sorriso, e nada mais poderia interessar do que ser feliz. Nem sequer as trovoadas de Abril ou o frio gélido de Janeiro. Se eu não estivesse convencido disso, então não seria eu, nem as palavras que te digo em frente ao rio fariam qualquer sentido.
- Espera...
Afastaste-te de mim, à procura de uma pedra que se encontrava junto do carvalho grande do parque. Não percebi logo se deveria ir atrás de ti, mas depois dei conta que apenas precisavas daquele momento. O rio engoliu, passados alguns segundos, a pedra que atiravas com tamanha força que rapidamente chegou ao fundo.
Nada da vida é definitivo, mas o sempre também é uma palavra do dicionário, já dizia o meu avô. E a vida não fazia sentido se não pudesse fazer alguém feliz. E esse alguém eras tu.
Olhei de novo para ti e vi uma lágrima a jorrar pelo canto do olho, descendo pela bochecha até chegar ao extremo do queixo, caindo com estrondo no chão. Ver-te chorar era uma das coisas piores que poderia assistir e não queria deixar que isso acontecesse.
- Não...
Corri a abraçar-te. Tinha prometido a mim mesmo que isto não voltaria a acontecer, que as tuas incertezas e os teus medos se segurassem nas minhas mãos, assim como eu pego na tua que deixa quase instantaneamente de tremer. Limpei-te as lágrimas com a minha camisola e abracei-te de novo.
Queria dizer que gostava de ti, queria dizer que tinha saudades, queria dar-te o mundo, queria que fossemos um só. Mas apenas o abraço e o beijo podiam transmitir tudo o que eu queria ser ao teu lado, sem medos.
Nada podia cobrar o preço de um abraço ou de um beijo. Ao meu jeito, depositei neles a ternura que sempre tentava transmitir, na essência do que queria dar-te...
E nunca mais as tuas mãos tremeram assim.
domingo, março 16, 2014
O Vendedor de Sonhos
Nasci a uma Quinta-Feira.
Podia começar assim todas as minhas histórias, no dia 26 de Agosto de 93, pois desde aí começaram os choros, os risos, as brincadeiras, os afectos, as palavras, os caminhos, as mochilas, as bolas de futebol, os livros, os carros. Em resumo, os sonhos.
Mas a história que vos conto não é minha. Não é minha, nem me quero apropriar dela, mas como mais ninguém parece indicado, vou contá-la.
"Chamei-a. A voz que nem parecia minha, rouca e pouco clara entoava a um ritmo lento como que um doente no seu leito, a recuperar de uma grave pneumonia. Tomei um pouco do copo de água que estava sobre a mesa e voltei, numa voz bastante mais própria, a dizer.
- Ouve-me.
Os passos largos lá fora dos estudantes, que não medem os dias que passam mas que contam os minutos para que a aula passe e que as noites da própria quinta-feira cheguem, confundiam-se com o choro indescritível que vinha do quarto.
O silêncio era interrompido em enxurradas de pequenos gritos, suspiros e uma linguagem de quem não queria cair na realidade dos acontecimentos.
O silêncio era interrompido em enxurradas de pequenos gritos, suspiros e uma linguagem de quem não queria cair na realidade dos acontecimentos.
- Já me disseste isso.
Retirei os lençóis ainda meio ensonado como um pássaro leve que desperta do sonho. Nada como um bom estalo na cara para me acordar naquela manhã quente de fim de Maio. Levantei-me, procurei o telemóvel e vi a mensagem que me gritava da noite anterior como que uma chama intensa.
Abri ligeiramente a janela com o estalido típico da casa velha, com portadas de madeira e vidros quebradiços. Cheirava claramente a Verão na calçada da rua lá em baixo, e o emaranhado de gente que não respeitava os paralelepípedos que assentavam no chão, calcando aquilo que pareciam ser restos de uma obra da câmara municipal.
Lá em baixo, junto ao chorão plantado, estava um senhor que não morava na minha rua. Quando digo isto, é porque nunca tinha reparado nele, apesar de a sua presença me ser familiar...
Voltei ao meu mundo, e o choro que entoava pela casa tinha abrandado. Não ter as palavras certas para os momentos certos custa, e a dificuldade que tinha naquele momento em confortá-la era enorme. Resumia-me a silêncios a espaços e a abraços longos.
Mas algo mais forte do que eu pegou na mão dela e disse:
- Vamos procurar sonhos.
Ela não entendeu, e no meio de todo o emaranhado de cabelos e soluços disse-me:
- Não sejas tonto.
De novo puxei-a com firmeza, como que numa intuição maciça de quem pressente a solução para o final do enigma e levei-a pelas escadas até à rua. O rio estava sereno, calmo e sem grandes brisas que nos pudessem arrepiar. Apenas os passos das gentes que por ali andavam e as suas conversas serviam como pano de fundo.
E então dirigi-me ao senhor que avistara pela janela e reparei entretanto que estava junto a um desses carros de mão com balões para vender. Por momentos julguei-me louco, mas estava convicto.
- Vejo que me procura - disse o velho.
Será que me teria visto pela janela?
- Escusa de fazer essa cara. Eu sei quem me procura.
Se aquilo já não estava a ser suficientemente estranho para sair dali, então é porque tinha mesmo acertado na previsão. Resolvi então perguntar:
- O que faz o senhor?
- Acho que você já sabe.
- Balões?
O velho olhou-me com um ar de repreensão.
- Acha mesmo?
- Parece-me óbvio.
O olhar enigmático fixava-se em mim e então olhei para ela. Estava ligeiramente menos pálida e parecia estar a apreciar a cena.
- Vendo sonhos.
O nosso olhar foi indescritível, e poderá o leitor estar a imaginar a minha cabeça a processar aquela informação. De novo achei que estava maluco por estar ainda a ouvir aquele velho de aspecto estranho e ela parecia também incrédula.
- Dê-me um balão.
O velho abanou a cabeça.
- Podes comprar 50 balões, mas os sonhos não tem preço. Conquistam-se.
- O que quer dizer com...
- Estás a ver aquela ponte?
A ponte sobre o rio ligava as margens da cidade no final do parque.
- Sim.
- Então repara naquele grande placard que a Câmara lá pôs. Diz o custo da obra e aquilo que foi usado para construir a ponte... Afinal aquilo é só um pedaço de betão com outros materiais que deram uma ponte.
- Onde quer chegar com isso?
De facto. O que estava para ali o velho a dizer?
- Achas mesmo que é isto que interessa?
O velho entregou-me um balão e perante o meu olhar inquiridor disse:
- Quem é que construiu a ponte?
- O Arquitecto João de Sou...
O velho interrompeu:
- Errado!
- Mas é o que diz no...
- Quem é que assentou os paralelos nesta calçada? Quem é que construiu os alicerces por esta cidade toda? Eu digo-te meu rapaz. Foram pessoas sem nome, mas a historia é ingrata e refere apenas os que estão no topo da pirâmide. Mas o esforço é de um sonho comum, e o esforço foi deles. É por isso que tens de entender...
- Entender?
- Que não podes deixar que ninguém tenha mais esforço do que tu para alcançar o teu próprio sonho. Não podes deixar que isso aconteça. Nem podes deixar que essas pessoas que te ajudaram a construir esse sonho, como estes teimam em fazê-lo.
E voltei de novo a olhar a ponte com ela.
- Vamos até ao rio, se o senhor não se importar.
Mas quando olhei, o velho tinha desaparecido. Nem sinal dele havia na rua...
Caminhámos até à ponte pedonal que ligava os dois lados do parque. Começava a perceber o significado das palavras do velho. Tanto para mim como para ela.
- Acho que começo a entender...
- Talvez ele queira que...
E o choro voltou de novo, mas na certeza que as memórias iriam ser lembradas e os sonhos a prioridade das nossas vidas. Tentei sorrir-lhe, mas apenas o abraço cobriu tudo aquilo que parecia agora dissipar-se, e o ar voltou a ficar mais leve. Apenas como peso da memória de quem partiu.
E no horizonte, uns tantos balões, como que estrelas ao por do sol, para nos lembrar que mesmo quem partiu, também veio colorir a nossa vida."
Retirei os lençóis ainda meio ensonado como um pássaro leve que desperta do sonho. Nada como um bom estalo na cara para me acordar naquela manhã quente de fim de Maio. Levantei-me, procurei o telemóvel e vi a mensagem que me gritava da noite anterior como que uma chama intensa.
Abri ligeiramente a janela com o estalido típico da casa velha, com portadas de madeira e vidros quebradiços. Cheirava claramente a Verão na calçada da rua lá em baixo, e o emaranhado de gente que não respeitava os paralelepípedos que assentavam no chão, calcando aquilo que pareciam ser restos de uma obra da câmara municipal.
Lá em baixo, junto ao chorão plantado, estava um senhor que não morava na minha rua. Quando digo isto, é porque nunca tinha reparado nele, apesar de a sua presença me ser familiar...
Voltei ao meu mundo, e o choro que entoava pela casa tinha abrandado. Não ter as palavras certas para os momentos certos custa, e a dificuldade que tinha naquele momento em confortá-la era enorme. Resumia-me a silêncios a espaços e a abraços longos.
Mas algo mais forte do que eu pegou na mão dela e disse:
- Vamos procurar sonhos.
Ela não entendeu, e no meio de todo o emaranhado de cabelos e soluços disse-me:
- Não sejas tonto.
De novo puxei-a com firmeza, como que numa intuição maciça de quem pressente a solução para o final do enigma e levei-a pelas escadas até à rua. O rio estava sereno, calmo e sem grandes brisas que nos pudessem arrepiar. Apenas os passos das gentes que por ali andavam e as suas conversas serviam como pano de fundo.
E então dirigi-me ao senhor que avistara pela janela e reparei entretanto que estava junto a um desses carros de mão com balões para vender. Por momentos julguei-me louco, mas estava convicto.
- Vejo que me procura - disse o velho.
Será que me teria visto pela janela?
- Escusa de fazer essa cara. Eu sei quem me procura.
Se aquilo já não estava a ser suficientemente estranho para sair dali, então é porque tinha mesmo acertado na previsão. Resolvi então perguntar:
- O que faz o senhor?
- Acho que você já sabe.
- Balões?
O velho olhou-me com um ar de repreensão.
- Acha mesmo?
- Parece-me óbvio.
O olhar enigmático fixava-se em mim e então olhei para ela. Estava ligeiramente menos pálida e parecia estar a apreciar a cena.
- Vendo sonhos.
O nosso olhar foi indescritível, e poderá o leitor estar a imaginar a minha cabeça a processar aquela informação. De novo achei que estava maluco por estar ainda a ouvir aquele velho de aspecto estranho e ela parecia também incrédula.
- Dê-me um balão.
O velho abanou a cabeça.
- Podes comprar 50 balões, mas os sonhos não tem preço. Conquistam-se.
- O que quer dizer com...
- Estás a ver aquela ponte?
A ponte sobre o rio ligava as margens da cidade no final do parque.
- Sim.
- Então repara naquele grande placard que a Câmara lá pôs. Diz o custo da obra e aquilo que foi usado para construir a ponte... Afinal aquilo é só um pedaço de betão com outros materiais que deram uma ponte.
- Onde quer chegar com isso?
De facto. O que estava para ali o velho a dizer?
- Achas mesmo que é isto que interessa?
O velho entregou-me um balão e perante o meu olhar inquiridor disse:
- Quem é que construiu a ponte?
- O Arquitecto João de Sou...
O velho interrompeu:
- Errado!
- Mas é o que diz no...
- Quem é que assentou os paralelos nesta calçada? Quem é que construiu os alicerces por esta cidade toda? Eu digo-te meu rapaz. Foram pessoas sem nome, mas a historia é ingrata e refere apenas os que estão no topo da pirâmide. Mas o esforço é de um sonho comum, e o esforço foi deles. É por isso que tens de entender...
- Entender?
- Que não podes deixar que ninguém tenha mais esforço do que tu para alcançar o teu próprio sonho. Não podes deixar que isso aconteça. Nem podes deixar que essas pessoas que te ajudaram a construir esse sonho, como estes teimam em fazê-lo.
E voltei de novo a olhar a ponte com ela.
- Vamos até ao rio, se o senhor não se importar.
Mas quando olhei, o velho tinha desaparecido. Nem sinal dele havia na rua...
Caminhámos até à ponte pedonal que ligava os dois lados do parque. Começava a perceber o significado das palavras do velho. Tanto para mim como para ela.
- Acho que começo a entender...
- Talvez ele queira que...
E o choro voltou de novo, mas na certeza que as memórias iriam ser lembradas e os sonhos a prioridade das nossas vidas. Tentei sorrir-lhe, mas apenas o abraço cobriu tudo aquilo que parecia agora dissipar-se, e o ar voltou a ficar mais leve. Apenas como peso da memória de quem partiu.
E no horizonte, uns tantos balões, como que estrelas ao por do sol, para nos lembrar que mesmo quem partiu, também veio colorir a nossa vida."
Os meus sonhos são feitos de novelos de lã enrolados num fino jogo de sentidos onde brotam os meus desejos Os meus sonhos têm um travo a canela e um cheiro a hortelã misturados num pedaço de ambição. Os meus sonhos tem sorrisos, mas também tem dores no sítio onde ninguém sabe que dói. Os meus sonhos são castelos, que no seu esplendor parecem perdidos e abandonados, mas com imensa vida que lá cresce.
Os meus sonhos são escadas altas que não acabam. São luzes fortes no meio de uma treva imensa. Os meus sonhos são somente isto: Esperança
Os meus sonhos são escadas altas que não acabam. São luzes fortes no meio de uma treva imensa. Os meus sonhos são somente isto: Esperança
sábado, março 08, 2014
A Formula de Deus: entre a Ciência e a Fé
“Yehi or!”.
Faça-se luz.
Não há ninguém que
nunca tenha perguntado o porquê. A dúvida, o propósito, as incertezas, as somas
da criação. Qual o motivo que nos faz estar neste universo imenso? Entre
crenças, Fé, Religião e teorias, avançamos agora para uma ideia que se começa a
difundir. Antes, a igreja poderia distanciar-se da ciência, hoje parece
aproximar-se. A religião confunde-se, hoje, com a espiral do universo na ânsia
de explicar completamente as suas fases. Só lhe dão nomes diferentes: há quem
chame Big Bang, Big Crunch, Big Freeze, Universos Rotativos. E há ainda quem
prefira optar pela Dança de Shiva, o Dharma ou os Dias da Criação. Parece-lhe
ridículo confundir religião com ciência? Não me parece, caro leitor…
É necessário que
tudo o que se entenda por religião tenha de ser lido como uma metáfora e não
por aquilo que realmente está escrito (ou o leitor acredita que lá no alto está
um senhor de barbas brancas a olhar por e para nós?). O que me faz acreditar em
Deus é exatamente um véu que não se consegue levantar pela linguagem
matemática. Esse Deus é a união das forças universais, as somas exatas, o
propósito de estarmos aqui. É o Deus que programou o Big Bang de tal maneira
única que foi possível gerar vida, apesar das baixas probabilidades pelas
infinitas combinações de números. E deram mesmo certo!
É impensável
acreditar que a Bíblia nos diga exatamente como o mundo foi criado, até porque
todos nós aceitamos que a nossa existência se deve aos primatas e a uma
evolução constante da vida na Terra. Pois, ao que parece os “Dias da Criação”
dizem mais do que à primeira vista nos fazem crer.
O que se tem de
entender aqui, para já, é que a noção temporal não foi sempre como hoje a
conhecemos, tendo existido uma aceleração num fator proporcional à expansão do
universo, fato que é confirmado pela medição das ondas de luz primordiais. Ora,
analisando essa proporção e os acontecimentos da Bíblia, estranhamente, as
coisas batem certo!
O universo é
estimado entre 10 mil milhões de anos e 20 mil milhões de anos de existência.
As notícias e os dados mais recentemente fornecidos pela NASA apontam
estimativas entre 14 mil milhões e 16 mil milhões… Sendo assim, e analisando os
tais “Dias da Criação”, poderíamos dizer que o primeiro dia teria um valor de 8
mil milhões de anos, sendo o segundo de 4 mil milhões de anos, o terceiro com 2
mil milhões de anos, o quarto com mil milhões de anos, o quinto com 500 milhões
de anos e o sexto com 250 milhões de anos. Quanto dá tudo junto? 15 mil milhões
de anos! Justamente o intervalo dos valores da NASA! Coincidência curiosa?
Talvez. Mas há mais…
O primeiro dia da
Bíblia é descrito como a criação da luz, do céu e da terra. Ora como sabemos
foi nesse tempo (entre os 15,7 e os 7,7 mil milhões de anos) que ocorreu o Big
Bang e a matéria foi formada. Isto é básico. Acontece que o segundo dia bíblico
(entre 7,7 a 3,7 mil milhões de anos) fala-nos na criação do firmamento.
Justamente nesta altura formou-se a nossa galáxia e o Sol, basicamente tudo o
que é visível da Terra.
Continuando… O
terceiro dia bíblico (3,7 a 1,7 mil milhões de anos) fala da formação da terra,
do mar e das plantas. Os dados científicos comprovam o arrefecimento, a
aparição de água líquida e surgiram imediatamente plantas e bactérias marinhas,
inclusivamente algas. E chegamos nós, na nossa pequena viagem, ao quarto dia
(1,7 mil milhões a 750 milhões de anos). Estranho como a Bíblia refere que
apareceram luzes no firmamento, ou seja, o Sol, a Lua e as estrelas. Mas
afinal, esta podemos refutar! Não tínhamos concluído que tinham sido formadas no
segundo dia? E é aqui que temos de nos focar como a Bíblia e a Ciência são
minuciosas. De fato, a sua formação foi no segundo dia, mas só ao quarto foi
possível ver isto. Isto porquê? Só então é que a atmosfera se tornou
transparente, deixando ver o céu e dando início à fotossíntese e ao lançamento
de O2 para a atmosfera.
Avancemos, pois,
para o quinto dia bíblico (750 a 250 milhões de anos) no qual nos são
anunciados os povoamentos por animais, tanto nos céus e na terra como no mar.
Os dados biológicos e geológicos confirmam estas datas através do aparecimento
dos primeiros animais multicelulares, vida marinha mais complexa e primeiros
animais voadores.
E a viagem termina
assim, no sexto dia bíblico, quando “Deus” especifica os animais em répteis,
animais domésticos e animais ferozes. E mais à frente ainda acrescenta:
“façamos o homem”. De novo colocamos em causa: então, mas os animais já não
foram criados? É verdade. Mas não estes animais. Ou seja, há cerca de 250
milhões de anos aconteceu a grande extinção, a maior de sempre (sem que haja
ainda motivo totalmente determinado) e quando há a referência a répteis,
sugere-se aqui os dinossauros e por último o topo da evolução: o homem.
Poderá tudo ser
uma imensa coincidência, é certo (até porque eu não vejo a Bíblia como uma
verdade absoluta, mas sim um conjunto de valores a preservar). Mas tudo isto
leva-nos para um plano de pensamento e de questões mais profundas sobre as
quais me poderia alongar por muito mais do que este texto. Sendo assim,
surgem-me algumas questões que vos deixo para pensar: E se tudo tiver um
propósito? E se Deus existe, como forma de consciência superior ao qual nós
apenas somos parte do seu “corpo” que se chama Universo? Seremos nós os seus
neurónios? O que sabemos nós sobre a vida? Acabará tudo num Big Crunch, na
dança de Shiva? Ou tornar-se-á tudo tão frio que teremos um Universo congelado
e inerte?
E as mais profundas das questões: será a robótica a
nova fase da evolução? E se tudo estiver programado para a morte deste universo
e o início de outro?
* Texto baseado no livro “A Fórmula de Deus” de José Rodrigues dos
Santos.
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
Quantos dias tem Fevereiro?
Todos os dias cruzava-me contigo.
Ninguém no corredor sabia o que diziam as órbitas que sorriam na tua face e nem sequer poderiam supor aquilo que a intranquilidade dos teus gestos reflectia sobre ti. Talvez nem eu soubesse.
Poderia eu encontrar 10 vezes alguém em diferentes realidades na minha vida e mesmo assim não perceber a maneira como a chuva cai na calçada da minha rua. Nem sequer saberia encontrar a proximidade de uma voz ou a janela de uma casa. Nem sequer o cheiro vindo da cozinha da vizinha de baixo, quando faz aquele bolo de nozes gigantesco aos domingos para os netos.
Porque eu não sabia grande coisa sobre isto. Ou melhor, ainda não me tinha apercebido.
Os dias passavam como o vento descontrolado das tempestades de Inverno. E a chuva caía cada vez com mais força, parecendo querer perfurar as estradas de alcatrão. E o cheiro do orvalho pela manhã...
E então, mais uma vez, o olhar voltou. Voltou com uma nova expressão, mais leve, mas mais certa, sobre o castanho avelã. Um olhar novo, mais brilhante.
"Quantos dias tem Fevereiro?"
Perguntava-me isto num domingo à tarde, chuvoso e cinzento, sobre a lareira enquanto eu dedilhava umas notas na guitarra acústica que estava normalmente encostada na lateral da sala.
"28"
Respondi com um tom normal embora tentando perceber onde a conversa nos levava. A expressão dela alterou-se como quem é apanhado desprevenido por uma chuvada de Abril. E então abriu os lábios e perguntou de novo.
"Quantos dias tem este ano?"
Mas o que era aquilo? A pergunta tinha alguma rasteira, e certamente podia-me por em apuros caso não conseguisse entender exactamente a direcção da conversa.
"365, porquê?"
O olhar dela indignou-se e até o ar parecia ter ficado num clima de incerteza.
"Não entendo"
Vinha aí dúvida, incerteza ou qualquer espécie de pergunta fundamental, daquelas bem femininas que nos deixam sem resposta ou com uma tremenda dificuldade de lidar com a preocupação dela.
"O que é que tu não entendes?"
Perguntei a medo, embora me esforça-se para dar confiança à pergunta.
"O dia de hoje"
Olhei o calendário em cima da mesinha junto à televisão e verifiquei que era dia 14. O cliché habitual do dia de S. Valentim tinha invadido as publicidades, as televisões e a cabeça das pessoas.
Trocámos olhares e ela sorriu. A unicidade daquele gesto era uma imagem igual na cabeça dos dois, pois reflectia a ideia comum que o dia de hoje não era motivo de festejo, pois a importância de um amor como aquele não ficaria incomensuravelmente reduzido aquele dia. Porque, embora a palavra doa a muito boa gente, eu queria mesmo que fosse eterno. Olhei-a de novo.
"Supérfluo"
Ela fitou de novo as chamas e escutou o silêncio por entre as pingas que caiam a grande quantidade lá fora, como que um estalar de um ramo num pinhal. Voltou-se e fixou-se nos meus olhos.
"Ainda bem que te conheci"
O batimento tornou-se mais rápido e os meus braços abraçaram o tronco dela. Não importavam grandes coisas na vida, mas apenas aqueles momentos, o "ser feliz com pouco". Cheguei-me ao ouvido dela e sussurrei.
"Não sei quantos dias passaste a olhar o chão mas, certamente, são menos do que aqueles que vamos contar as estrelas do céu"
Felicidade.
domingo, fevereiro 09, 2014
Um "E" que parece ser de Estatística
Jovem, tens ambições de
entrar no Ensino Superior mas ainda não concluíste o 12º Ano? Acabaste já o 11º
ano e procuras uma maneira de entrar sem exames? É fácil: o Ministério da
Educação e da Ciência dá-te a possibilidade de obter um curso de nível 5 com
equivalência ao 12º ano e parecido com as licenciaturas. E, claro, poderás
concluí-lo em apenas 2 anos com a possibilidade de te serem concedidas
equivalências no Instituto Politécnico que frequentas, através de um Concurso
Especial, criado especialmente para o efeito.
“...o Ministério da Educação e da
Ciência dá-te a possibilidade de obter um curso de nível 5 com equivalência ao
12º ano e parecido com as licenciaturas”
José Mourinho voltou a
Inglaterra no ano em que Crato decidiu também ser “Especial”. A sua profunda
tentativa de atribuir Concursos Especiais de Acesso a tudo o que são possíveis
futuros alunos do Ensino Superior não fica nada atrás das estratégias do
“Special One”. Vai-se esquecendo é que as vagas especiais têm um teto máximo,
ou seja, apenas uma baixa percentagem de alunos é que poderá aceder por meio
destes concursos…
Depois da tinta que vai
correndo sobre ondas gigantes, praxes mirabolantes e outra atrações que o
senhor ministro e o governo nos vão proporcionando, eis que surge um assunto
verdadeiramente importante para os Politécnicos do País. No entanto, a tutela
prefere chamar os alunos e os institutos de educação para discutir praxe.
Apregoando que “luta por
um Ensino cada vez melhor”, o governo dirige-se agora para a total
descredibilização do Ensino Superior Politécnico que, para além dos cursos
acima referidos, pretende que cursos profissionais possam ser dados em conjunto
com os próprios politécnicos (entrevista à Antena 1 a 18/01/14), dando a
entender que pretende, entre vários objetivos, preencher horários de
professores com pouco tempo letivo, criar cursos para dar impulso a
determinadas regiões e, também, pela falta de quadros de nível 5 no país.
“...as associações empresariais de vários
pontos do país (…) não precisam destes cursos.”
É bonito tudo isto, não
é? Não fosse um absoluto estado caótico de objetivos irreais. Os cursos
possíveis que o Ministério pretende adotar não têm qualquer estudo de mercado;
as associações empresariais de vários pontos do país (por exemplo, de todo o
Norte de Portugal) afirmaram, após o Instituto Politécnico do Porto as ter
auscultado, que não precisam destes cursos.
E por falar em trabalho:
caso uma empresa possa contratar pessoas com um grau mais baixo (que tenham
frequentado estes cursos) em vez de licenciados a quem, por norma, têm de pagar
mais, qual será a opção da empresa, ainda mais num momento de crise que nós
vivemos? Parece simples, não parece? E nós vamos deixar que isto aconteça?
“...caso uma empresa possa contratar
pessoas com um grau mais baixo (…) em vez de licenciados a quem, por norma, têm
de pagar mais, qual será a opção da empresa (…)?”
Além disto, parecem ser
evidentes dois interesses inerentes aos politécnicos: o de captar alunos (por
cada aluno, o estado atribui um valor) e o fator estatístico (este mais do
interesse da tutela) que se resume ao aumento do número de licenciados no
Ensino Superior.
Num contexto em que o
Ensino Superior Politécnico compete por ministrar Doutoramentos ditos
“Profissionalizantes”, a ideia de integrar estes “short cycles” (que tem um
nome pomposo e parecido ao atribuído aos licenciados) e dos Cursos de caráter
Profissional, vai assim contribuir para uma descredibilização do Ensino
Superior Politécnico, que mais uma vez nos deixa a nós, estudantes que
pertencemos a este quadro, num profundo sentimento de incapacidade por não
termos uma opinião audível.
É por isso que Crato tem
sido anunciado como o próximo gestor de marketing de várias cadeias de Supermercados,
porque consegue, além de dar “promoções”, uma subida incrível no número dos
“lucros”. É dececionante que as pessoas olhem para Cristiano Ronaldo como um
ídolo e esqueçam o nosso Ministro da Educação e da Ciência, que tem uma
performance incrivelmente melhor que o CR7!
Mas o que me parece
incrível é que, num país como Portugal, o Ensino seja feito com base em
estatísticas e o que realmente interessa é poder aumentar o número de
licenciados, para depois a Dona Merkel, ou qualquer outra personalidade do
contexto europeu, nos possa dar uma palmadinha nas costas e um sorriso amarelo
como quem diz: “Portaste-te bem”. E estes cursos? Têm “cheirinho” a fundos
Europeus.
Estamos assim, a lutar e
a debater na FNAEESP (Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino
Superior Politécnico) estas ideias, uns mais a favor e outros mais
discordantes, mas com a certeza que não somos mais que um órgão consultivo do
Ministério.
E também esperamos
sinceramente que Nuno Crato volte aos treinos, porque com tanta bola ao lado,
não há clube que aguente!
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