quinta-feira, dezembro 30, 2010

Superstars

Começa no assobio ligeiro a canção de David Fonseca. Gosto de facto da canção pela sua sonoridade. Ao explorar o som, vejo que se trata de uma relação.

They don't know how it really feels
They're just here on holidays
Like dummies filling landscapes
How could they see you cry


E o que faz sentido aqui? Eles são como figurantes neste cenário. Nada mais importa.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Yara

Passo claro, mãos em riste
Passa Yara de rosto triste
Nas ruas de Nueva Madri
E chora largamente
Porque partiste.

Yara do cabelo negro,
Em labirintos de lojas, passeia
Sem olho nem vagar
Sem lugar nem beira
Onde possa poisar
O rasgo da sua veia

Olhos cor-esmeralda
Mãos de seda, rasgando a vida
Levanta-se Yara, perdida
À procura do sonho
Da ceara à muito deixada
De uma perda sentida

Yara da blusa rasgada
Recebe o pão para jantar
E olha penetrante a calçada
Onde se vai deitar

Yara não sabe
Yara vagueia sem rumo
Yara perdeu-se comigo,
Yara perdida do mundo,
Cai no abismo profundo
Dos sem-abrigo

terça-feira, dezembro 28, 2010

Jasmim

Folha rasgada do papel queimado,
Escrevo um nome devagarinho
Como quem sussurra no céu estrelado
E cai de mansinho, no chão caiado

Os versos são simples,
A escrita é pouco elaborada
De quem apenas recorda a saudade
Que chegou pela alvorada

A carta que nunca escrevi
O selo que nunca colei
A musica que nunca ouvi
Os versos que nunca rimei

Porque agora estás no chão
Morta!
E o que me arrependo por não ter tocado
Os teus lábios de Setim
De ter contado os teus beijos de Carmim
E de não ter cheirado
O teu perfume de Jasmim.

E as minhas lágrimas são as tuas.
E a minha campa é a tua
Onde deixo as flores na jarra
Para me levares para sempre.

sábado, dezembro 25, 2010

Porque é Natal


Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

domingo, dezembro 05, 2010

Ensina-me a Vo(am)ar

A veia corre saltitando vermelha
Ritmica e inocente
De quem vem precocemente
Aos designios do miocárdio

Quem sou eu e esse mal que tu me fazes?
Esse mal que me obriga a render-me às tuas pazes
Esse mal que me percorre o corpo inteiro
Esse mal que passa no coração primeiro
Que grita solenemente
No fundo da minha alma
E se solta delinguente
Na minha tarde mais calma

E quem manda nele?
Nesse tão nobre sentimento
Que outro ser humano nutre
Ninguem sabe ninguem pensa
Ninguem balança no sustento
De uma vida de criança
E do meu pensamento
Que se dirige num rimbombar
Para o teu ouvido e rapidamente
Para o teu coração e me deixa sem ar.
E das-me a tua mão:
- Ensina-me a voar...