sábado, novembro 20, 2010

Carta de Osvaldo

Caro jovem Daniel,
De tantas cousas que a vida me deve, meus pais me deram o nome de Osvaldo Sanches.
Muitos dias passaram desde que nasci em Salvaterra d' Extremo e desde essa altura me formei como homem. Meu pai sempre quis uma boa educação para mim, mas nunca houve dinheiro que conseguisse pagar esse ensino. Apenas tenho o nono ano, mas já tenho uma experiencia de vida bastante considerável. Os meus 32 anos me dizem isso. Fui registado a 3 de Outubro de 1978, na altura de grandes reboliços a seguir ao 25 de abril e o unico trabalho que conheço é a lide do campo e dos bois. Devo ser dos últimos em Portugal. Mas meu pai sempre me ensinou isso, mesmo quando chorei sobre a sua campa há 10 anos. Minha mãe morreu nova, quando eu apenas era um bebezinho e pouca memória me ocorre dela, mas meu pai sempre me deu educação para lutar p'la vida.
Hoje escrevo porque na sei quanto tempo vou viver mais. Uma pessoa que está sozinha numa aldeia deserta com um cancro no pulmão não pode fazer mais nada*. E pouco me consigo mais que mexer para te escrever.
Meu corpo há-de resistir e enquanto isso hei-de fazer minha vida quando der.
Deixo-te aqui as minhas coisas para que um dia puderes pegar nelas, fá-lo. Afinal não tenho descendentes e desde que vieste cá não conheço mais do que dez pessoas.
Podes contar a minha história de vida, como sei que queres, e mesmo os meus poemas que pouco têm de correcto mas eu considero que o campo é o melhor da vida.

Um abraço,

Osvaldo Sanches

*Osvaldo morreu no dia 28 de Outubro de 2010 a caminho do Hospital de S.Teutónio - Viseu

Osvaldo

Ora quente, ora frio
Osvaldo seguia o seu caminho
Ardúo, sofrego, doseado de cansaço
Caminha sobre as cementeiras do Travasso

As risadas dos pássaros
Atenuam uma morta paisagem
De quem ouve, de quem passa
De quem capta esta imagem

O ribeiro corre lá pelo fundo
Águas paradas, águas tristes
Águas que Osvaldo deixa escorrer no seu mundo
E vão cair no seu pensamento profundo

E de quantas vezes Osvaldo tentou
E de quantas vezes Osvaldo sorriu
Mas de nada lhe serviu
E a este destino o ditou

E Osvaldo agora definha
No seu leito sozinho
De quem não tem pão
De quem não tem vinho

E o seu esforço é inglório
De chamar os de mais perto
A sua alma é vazia
E os campos, um deserto

Aquele era o tempo...

O tempo em que os nossos olhos se uniam na mesma visão.
O tempo em que as nossas mãos se uniam no mesmo tacto.
O tempo em que o nosso caos era a solução para o amor.
O tempo em que o coração batia e o ar fluía
O tempo da irradiação total de felicidade por cada poro do corpo
O tempo em que ambição da conquista fazia a minha luta
O tempo em que a memória era a tua imagem e a minha voz o teu corpo
O tempo em que rasgava os céus no mais profundo luar
O tempo em que me unia a mais 10 e lutávamos lá dentro dando tudo
O tempo em que o amuderecimento estava na eclosão
O tempo em que não havia tempo para corar, para esquecer
O tempo em que girava o mundo à volta de nós
O tempo em que o descanso era o sofrimento do dia
O tempo em que a motivação era o prato desse mesmo dia
O tempo em que o trabalho sabia a descanso e o descanso a trabalho
O tempo em que as garras saiam das minhas mãos para nunca mais largar a presa
E para lutar, lutar, lutar até à exaustão.
O tempo é o tempo, e o tempo moldou-me para ser o que sou hoje.

terça-feira, novembro 16, 2010

N(G)A(S)TO


NATO.

Cimeira da Nato.Hoje foram anunciados as medidas de segurança durante a cimeira e aqui está o preço a pagar: "5 milhões de euros" a voar em alguns dias...Continuamos a querer exibir-nos como sempre: as cimeiras, o Euro2004, etc,etc,etc.É de facto verdade. O que me leva a uma questão: "Será possivel que não consigamos mostrar alguma coisa sem gastar?"O FMI está de facto em cima de nós, a Comissão Europeia ainda mais nos aperta, e já nos chamam Irlanda do Sul ou Grécia Latina. O defecit (penso que se escreve assim) continua a crescer e a crescer...Os gastos são enormes, a crise continua eminente na nossa mira, nos nossos olhos, no dia-a-dia. E de quem é a culpa? Dos bancos? Sim. Do Grande CRASH Mundial? Sim, mas o Governo tem papel importante nesse capítulo, nessa especulação financeira.Se calhar não são só os portugueses que tem de conter os gastos para dar ao estado... Se calhar o Próprio GOVERNO deve dar ao próprio bolso. À que pensar qual é o caminho. À que pensar em contenção para pagar-mos a despesa.Está na hora de mudar, mostrem-me que vale a pena a pouca esperança que deposito nos deputados.



Para que o meu país e dos meus filhos não seja pior do que aquele que vocês encontraram.


quinta-feira, novembro 11, 2010

Cirurgia ao Ser

O mundo reserva ao ser
A beleza de interpolar uma rima
Uma lembrança... um pensamento
Algo que não sai de cima

Da minha mente perdida,
No meu corpo dolente
Que finge secretamente
A dor que não sente.

Diz Pessoa, afirma e sublinha
Dor que é dor num poema
É demasiado fingida
E nos faz pensar o tema.

E afinal o que somos nós?
Restos de poeiras cósmicas
A boiar no universo do pensar
Na universalidade do pesar

E reescreve a minha alma
Atenta e firme
De quem fala, sente e pensa
Dentro do meu ser Sublime